A fera (inspiração Fundação Casa)
Aqui somos iguais.
Aqui somos parceiros.
Aqui aprendemos paz.
Aqui encontrei pessoas.
Aqui temos que ser família.
Família que deixei.
Família que não vejo.
Família que esqueci.
Família aquela? Não. Eu não
deixei.
Deixaram-me.
Deixaram-me sumir. Em uma
noite, em uma esquina, sai para ir até ali.
Falei. “Vou ali, volto já”.
Não voltei. Fizeram-me um
sinal e eu fui. No começo me assustei, depois... Achei o que não era para ser
achado. Mas até que foi bom para mim. Há... Encontrei-a.
Minha menina. Amor a
primeira vista. Sabe qual o seu nome? Vida! Seu sobrenome?
Dura de ser vivida.
Depois que casei com ela me
entreguei por inteiro. Pensei que iria resistir, que seria eu. Enganei-me.
Transformei-me.
Chamam-me agora de:
Fera!
Fera reprimida
Fera excluída que não pensa
e não fala.
Agora trago os ensinamentos
dela, porém não ensino para ninguém.
A noite Só eu e ela. Ela
não me deixa e nem me larga.
A deixo não. Vou com ela
Até que “O de cima nos separe”.
Novo lar, nova casa, nova
família, novos irmãos. À noite quando me deito sinto o peito apertado, abafado,
sufocado.
Que vontade de rir.
De chorar.
De gritar.
Bem alto.
Rir do novo lar.
Chorar com a nova família.
Gritar com os irmãos
dizendo.
“Cuidado com ela! Vai te
atrair, te sugar, te puxar, te transformar.”
Mas não irão me ouvir. Sabe
o porquê? Eu não falei, perdi a coragem. Somente pensei.
Se eu gritar, outros que não
são da família podem ouvir e irão zombar de mim.
Afinal sou a fera, não
tenho sentimentos, não acreditam que posso pensar e sentir.
Tudo bem. É melhor abraçar
ela, tentar dormir. Amanhã um novo dia começa com as velhas mesmas coisas.
Antes de pegar no sono
escutei várias vozes e escutei o que falavam. Dos meus olhos, no escuro,
escorreu uma única lágrima.
Ela escreveu em meu rosto:
“Ela trouxe para você um
novo irmão”.


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